Instituto Butantan investe em plataforma automatizada para aperfeiçoar processo de análise da eficácia de vacinas

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Imagem: Joaquin Corbalan/Shutterstock

Economia de recursos, redução drástica de prazos e autonomia em relação aos processos. Esses são os principais impactos que a implementação de uma plataforma robotizada de diagnósticos vai trazer para a rotina de trabalhos do Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS), núcleo de pesquisa do Instituto Butantan voltado para monitoramento de vírus e análise da eficácia de vacinas.

Elaborado em parceria com a Loccus do Brasil, indústria de biotecnologia especializada no desenvolvimento de equipamentos e soluções para laboratório, o sistema vai automatizar todo o processo de microneutralização – teste que avalia a resposta imune de indivíduos vacinados pela presença de anticorpos capazes de inibir ou neutralizar uma infecção viral.

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“A automação do processo também vai garantir maior precisão, reprodutibilidade e rastreabilidade nos resultados, reduzindo a variabilidade do erro humano e os riscos de contaminação de amostras”, observa a diretora do Centro de Desenvolvimento Científico (CDC) do Instituto Butantan e coordenadora do CeVIVAS, Sandra Coccuzzo.

Transição tecnológica

Os ensaios de microneutralização já haviam passado por uma etapa de aperfeiçoamento pela equipe técnica do CeVIVAS. Anteriormente, os testes eram feitos em nível qualitativo, apenas indicando ou não a presença de anticorpos. Com o aprimoramento, foi desenvolvida uma curva padrão reprodutível, que passou a mensurar exatamente a quantidade de anticorpos presentes nas amostras, contribuindo para o escalonamento dos ensaios.

Paralelamente, a expansão da área de Ensaios Clínicos do Instituto Butantan fez com que o volume de amostras recebidas pelo time do CeVIVAS para análise aumentasse expressivamente.

Até o momento, grande parte desse material é enviado para análise em laboratórios parceiros no exterior, o que impacta diretamente os custos e os prazos dos processos. A expectativa é que com a automação interna, o tempo de análise de cerca de 20.000 amostras reduza de cerca de seis meses para, aproximadamente, 40 dias.

Equipe CeVIVAS (da esquerda para a direita): Antônio Jorge Martins, Maria Carolina Sabbaga e Sandra Coccuzzo

“Nos familiarizamos e entendemos a importância da automação durante a pandemia de Covid-19”, recorda a pesquisadora científica e coordenadora do CeVIVAS, Maria Carolina Elias Sabbaga. Em 2021, o CDC estabeleceu a primeira parceria com a Loccus do Brasil que culminou na criação do LabMóvel. O laboratório itinerante instalado em um contêiner para realizar diagnósticos de Covid-19 e sequenciamento genômico do vírus SARS-CoV-2 ajudou a frear a disseminação do vírus em diversas regiões do estado de São Paulo.

“Trazer essa possibilidade de automação para o nosso laboratório de diagnóstico, contribuindo com os ensaios clínicos de possíveis novas vacinas desenvolvidas pelo Instituto Butantan é uma conquista que estamos perseguindo já há alguns anos”, completa a pesquisadora científica.

Sistema contempla braço robótico e equipamentos como pipetadores, lavadora, leitora de placas e estufa

Detalhes do sistema e valorização do capital humano

O processo completo de microneutralização envolve etapas de cultura celular, diluição seriada, adição de vírus e reagentes, incubação de amostras por até 20 horas, lavagem e leitura por fluorescência. Tal fluxo depende da constante movimentação manual de placas com amostras entre diferentes equipamentos.

O sistema automatizado vai contemplar uma estação totalmente integrada, composta por braço robótico com garra, que se movimenta entre os diversos equipamentos necessários para a execução do teste – entre eles, pipetadores, lavadora, leitora de placas e estufa. Autônomo, o conjunto é capaz de operar do início ao fim do dia sem nenhum tipo de intervenção manual. 

Enquanto o braço robótico realiza a transferência de ponteiras e reagentes, o pipetador é responsável por executar a diluição seriada. A estufa tem autonomia para reconhecer a posição exata de cada placa dentro do equipamento, garantindo o cumprimento dos tempos de incubação. Após a etapa de lavagem automatizada das impurezas acontece a leitura por variação de fluorescência, que permite identificar a concentração de anticorpos protetores presentes nas amostras.

De acordo com os engenheiros da Loccus, o sistema robotizado tem capacidade para processar 50 placas semanais – para operar o mesmo circuito manualmente, estima-se que seria necessário um time com cerca de 20 pessoas.

“No CeVIVAS temos um grupo formado essencialmente por mestres e doutores. São pesquisadores altamente qualificados que, com essa automação, terão mais tempo para se debruçar sobre tarefas de alto valor agregado, como análise de dados e inovação, resolvendo problemas reais”, reforça Sandra Coccuzzo.

Próximos passos

Em agosto de 2026, a equipe do CeVIVAS, representada pelas coordenadoras Sandra Coccuzzo e Maria Carolina Sabbaga, visitou as dependências da Loccus do Brasil, localizada na cidade de Cotia, em São Paulo, para vistoriar presencialmente a plataforma robótica desenvolvida para os ensaios de microneutralização. Foi a primeira vez que as gestoras puderam conferir o funcionamento do sistema.

“Estamos ainda mais animados depois de ter visto tudo. A automação será uma mudança de paradigma, uma novidade que será plenamente absorvida. Tenho certeza de que no futuro vamos nos perguntar: ‘como é que fazíamos tudo isso manualmente’”, comemora Carolina Sabbaga.

O encontro permitiu o alinhamento de detalhes práticos diretamente com os engenheiros de automação.

Visão geral da estação automatizada e integrada

O superintendente geral da Fundação Butantan, Marcio Augusto Lassance, também esteve na Loccus, onde avaliou como o modelo de parceria para automações customizadas pode ser expandido para outras áreas e projetos do Instituto Butantan.

A fim de atender aos rigorosos parâmetros exigidos na plataforma de ensaios clínicos, o laboratório passará por uma obra de adequação antes da instalação do equipamento integrado, com previsão de entrega até o fim de 2026. Depois da instalação, a plataforma será certificada junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com expectativa de que o sistema esteja operando com capacidade total já em 2027.

“É um investimento que vai permitir ao Instituto Butantan antecipar dados e resultados, acelerando negociações e impactando decisões estratégicas. Essa autonomia que ganhamos ao longo dos processos nos coloca em outro patamar. Além da vacina, entregaremos também conhecimento para a população”, conclui Sandra Coccuzzo.

Instituto Butantan

Instituto Butantan é um renomado centro de pesquisa biomédica e o maior produtor de imunobiológicos da América Latina. Vinculado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e fundado em 1901, ele é responsável pela fabricação de grande parte das vacinas e soros hiperimunes distribuídos pelo SUS.

Este conteúdo foi originalmente publicado por Agência SP e reproduzido pela Tecnogaming. — ver matéria original